Alonso era um homem pacato e muito caseiro. Era considerado pelos amigos da repartição, um autêntico “Barriga Branca”. Depois que casou, nunca mais saiu só. Estava sempre na companhia da esposa Ana Clara.
Ele e a família toda, eram católicos fervorosos, que tinham cadeira cativa na fila da frente na Igreja de São Procópio.
Alonso não faltava um domingo e, sempre que podia, assistia à missa das quartas-feiras à noite. Todos os freqüentadores da igreja já o conheciam e o padre Anastácio tinha por ele a maior admiração, assim como aos seus familiares.
Certo dia, quando Alonso, inclusive fez a leitura litúrgica, o bom homem e sua esposa foram chamados à sacristia e convidados pelo padre Anastácio a tomar o café da manhã em sua companhia, ao que prontamente aceitaram, sentindo-se muito honrados, afinal não era qualquer um que tinha o privilégio de tomar café com o padre, um crioulo de um metro e oitenta, corpo atlético, natural da Bahia.
Durante a refeição, onde estavam servidas iguarias da cozinha nordestina como beiju de tapioca , cuscuz de milho e de arroz, bolo de tapioca, pão de milho, café torrado em casa com erva-doce, carne de sol, paçoca, leite de vaca puro, manteiga de garrafa, aipim cozido e outras, o sacerdote, que além de bom de garfo era muito delicado, um verdadeiro gentleman, fez um convite a Dona Ana Clara, uma morena de boa estatura e bem roliça, de pela macia e rosto rosado, lábios carnudos e sensuais, cintura fina destacando os quadris de bom tamanho e bumbum que bamboleava provocante quando ela andava, para ser a coordenadora da Comissão de Senhoras Filhas da Virgem.
O convite foi aceito prontamente com a anuência de Alonso, que se sentiu muito honrado com o convite à sua esposa. Ana Clara assumiu o comando da comissão e logo passou a mostrar trabalho, desenvolvendo ações sociais na comunidade, onde ela e o esposo eram muito conceituados.
Alonso se enchia de júbilo, todas as vezes que o padre Anastácio elogiava o trabalho desenvolvido por Dona Ana Clara. Tudo ia bem. Às mil maravilhas. Toda quinta-feira, a comissão se reunia para debater as ações e traçar planos. No final, a coordenadora permanecia na igreja para prestar contas ao padre Anastácio, o que geralmente durava até às 23 horas.
Pacientemente Alonso ficava sentado à porta da moradia à espera da amada, visto que a Igreja de São Procópio, ficava a apenas dois quarteirões. Assim acontecia todas as quintas-feiras e Alonso não se preocupava com a vigília, já que sua esposa estava fazendo uma boa ação, a serviço do Senhor.
Certo dia, porém, aconteceu um apagão inesperado e todo bairro ficou às escuras. Isto preocupou Alonso, que temendo pela segurança da esposa Ana Clara, muniu-se de uma potente lanterna e se dirigiu à igreja. Ali encontrou a porta somente encostada e entrou, com o propósito de ir até à sacristia, mas errou a porta e foi parar nos aposentos do padre Anastácio. Quando acendeu a lanterna, deparou com um quadro inusitado. O sacerdote e sua esposa Ana Clara estavam completamente despidos sobre a cama.
Alonso baixou a cabeça e voltou para casa, onde passou a noite em claro, aguardando sua Ana Clara, para cobrar-lhe explicações. Porém, ela não retornou e pela manhã, também o padre Anastácio não mais foi encontrado. Os dois haviam fugido.
Alonso hoje anda cabisbaixo e nunca mais entrou na igreja. A molecada do bairro comenta que Alonso deixou a Igreja de São Procópio para ser devoto de São Cornélio.
Publicado por douglascunha
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