Era sábado. Tarde de sol forte lançando sua luz dourada sobre os telhados, refletindo nos azulejos das fachadas dos velhos sobradões do Centro Histórico de São Luís do Maranhão. Fazia calor, criando um ambiente propício para o deguste de uma boa “loura suada”.
O delegado Pafúncio não resistiu. Deixou o carro em casa e de ônibus foi para a praia Grande. Entrou na feira, mas já ali haviam muitos bêbados falando alto. O barulho fez com que o velho delegado saísse dali. Atravessou a praça Nauro Machado e subiu as escadarias, seguindo pelo beco da Pacotilha, em direção ao Largo do Carmo.
Ao se aproximar do cruzamento com a rua da Palma, ouviu o som de uma música. Na esquina havia um bar. Era dali que vinha o som de um órgão e a voz de um cantor. Era o Stênio Johnny que cantava uma balada em inglês, tipo anos 70.
O delegado Pafúncio não resistiu. Entrou, e para não chamar a atenção, se dirigiu, discretamente, para os fundos do prédio. Ali encontrou um pequeno quintal onde havia uma goiabeira. As escassas lufadas de vento balançavam, brandamente, as folhas que pareciam dançar ao som da voz do Stênio. Pafúncio pediu uma cerveja e foi servido, prontamente, pela garçonete.
Ficou ali ouvindo e bebendo. Até que em dado momento, surgiu à sua frente uma mulher morena de cabelos muito negros, lisos e longos, emoldurando um rosto bonito, ornando por um alvo sorriso. Era uma mulher magra, mas de corpo bem delineado. Uma jovem de aproximadamente 30 anos, muito bonita. Trajava um vestido estampado, de saias largas, escondendo um bumbum bem feito e sensual.
Ela pediu para sentar à mesa do delegado e se apresentou como Concita. Estava embriagada mas, conseguia articular as palavras e conversava muito bem. Pediu para beber, mas o delegado Pafúncio, vendo o seu elevado estado etílico, convenceu-a a beber refrigerantes. Concita não ofereceu resistência e lhe foi servida uma Coca-cola bem gelada.
Os dois conversaram sobre o momento político do estado e na nação e outros assuntos.
Stênio Johnny fez uma seqüência de velhos boleros e o delegado Pafúncio foi convidado, pela sua acompanhante, para dançar. Concita dançava bem e colava seu corpo ao do velho delegado, que logo ficou animado. O corpo quente, os cabelos perfumados e a dança sensual daquela mulher, fizeram-lhe aflorar o libido. Pafúncio pensou que ia se dar bem.
O casal voltou à mesa e, muito tagarela, Concita perguntou-lhe sobre o estado civil, tendo Pafúncio afirmado-lhe ser casado. Em tom solene, a mulher o encarou e fitando-lhe com olhos castanhos penetrantes, disse-lhe:
- “Vá pra casa. Vá ficar junto da sua mulher que lhe está esperando. De que adianta ficar comigo? Sou uma prostituta. Sou apenas uma buceta. Sua mulher não merece ser traída”.
Ato contínuo, Concita levantou-se e meio cambaleante, saiu, desaparecendo nas ladeiras que acessam à praia Grande. Aquelas palavras ficaram martelando na cabeça do delegado Pafúncio, que teve uma crise de consciência. Um grande sentimento de culpa. Pagou a despesa, levantou-se e foi para casa. Se dirigiu à cozinha, onde Dona Marieta, sua mulher, fazia um bolo e deu-lhe um beijo na cabeça. Ela perguntou-lhe, carinhosamente:
- “Onde estavas, meu velho” ?
- “Ali no boteco do Zé, tomando uma cervejinha”, respondeu.
Pafúncio tomou um longo banho, vestiu um pijama de seda azul cobalto e foi assistir televisão. Dona Marieta o chamou para o jantar. Depois da refeição voltou à sala e ficou assistindo o jornal televisivo. Deu a hora de deitar. Refastelou-se na macia cama e ficou observando, cheio de pensamentos pecaminosos, Dona Marieta, que já trajando uma transparente camisola cor de rosa, rezava o terço.
Findada a oração, Marieta deitou-se. Pafúncio se chegou para bem próximo e apalpou-lhe a peluda genitália, convidando-a para o sexo. Marieta deu-lhe uma palmada na mão saliente e disse-lhe:
- Te sossega. Já estou velha para isso. Vai procurar mulher na rua.
Pafúncio virou-se e resmungou:
- “Entenda as mulheres”.
Dormiu, maldizendo as palavras de Concita.
Publicado por douglascunha
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