O DEVOTO

Novembro 12, 2007

Apolinário  era um homem muito brincalhão. Gostava de fazer gozação com os amigos e, habitualmente, botava apelido em todos. Em virtude de ser negro daquele que se costumava dizer “ritinto”, pelo fato de ter sua negritude bem acentuada e por isso mesmo, Zeca Roela, o chamava, ironicamente, de “Alvaiade”,  substância muito branca, ao contrário da cor da pele do Apolinário.

Além de gozador, “Alvaiade” gostava muito de brincar na noite. Era do tipo notívago contumaz. Bandalho todo. Da “pá virada”. Quando tirava pra “brincar”, adentrava pela madrugada, porém nunca aos domingos. Este dia era sagrado. Era para ir à missa com a patroa que não abria mão deste costume.

Num sábado “Alvaiade” saiu de casa logo cedo, dizendo para dona Maria do Carmo, sua esposa, de que iria visitar um amigo, que igual a ele, já estava aposentado, e que estava doente. Assim fez, mas foi esbarrar na Praia Grande e caiu na gandaia. Primeiramente tomou umas cervejas no cabaré da Faustina e depois caiu na roda do tambor de crioula, até às primeiras horas da madrugada.

Já bastante alto de misturar cerveja e cachaça temperada com cravinho, saiu em direção ao Terminal de Transporte Urbano, mas ao atravessar a pista da avenida, ouviu um som de seresta que vinha do Bar Canal. O conjunto executava boleros. “Alvaiade”, que era “pé de valsa”, não pensou duas vezes. Se dirigiu para lá e deparou com uma crioula alta de bunda arrebitada, dentro de uma saia estoque bem apertada e de blusa imaculadamente branca. Aquela figura o fez lembrar das noitadas memoráveis que viveu no cabaré da Ziloca, e convidou a moça para dançar.

O cantor  caprichou no bolero “En la orillla de mar”, tentando imitar Bienvenido Granda. Alvaiade foi atacado de profunda nostalgia e caprichou nos breques, sendo acompanhado, com maestria, pela crioula, que marcava bem e estava muito perfumada. O casal dançou horas seguidas até que o cantor anunciou a saideira. Neste momento “Alvaiade” se deu conta de que já eram cinco horas da madrugada, e lembrou que às  seis horas deveria estar saindo de casa com a patroa para assistirem à missa de domingo, na igreja da Cohab.

Nessa hora, temendo a “esculhambação” que pegaria, caso não estivesse em casa, no ponto,.na hora de costume, Alvaiade despediu-se da crioula e correu para o lado de fora do bar, pegando o carro do taxista conhecido como “Waldick Soriano”, e pediu que o levasse para casa, o mais rápido possível. Waldick ainda cantou umas pérolas do cantor que imitava muito bem, mas Alvaiade não estava nem ouvindo. Queria chegar logo em casa. Ali chegando, abriu a porta da forma mais silenciosa possível, e se dirigiu para o quarto, onde Dona Maria do Carmo dormia plácidamente, dentro de uma camisola lilás.
“Alvaiade” pensou em deitar-se sorrateiramente, para que ela pensasse que ele havia passado a noite ali, mas no momento em que sentou-se à cama para tirar os sapatos, Dona do Carmo acordou, e foi logo gritando:

- “Isto são horas, canalha, de você chegar em casa” ?

- “Nada disso, meu amor. Já acordei a tempo, e estou acabando de me aprontar para irmos à igreja. Você sabe que não perco uma missa, pois sou devoto de São Benedito”, retrucou “Alvaiade”.

Dona do Carmo acreditou e os dois foram felizes para o ofício religioso dominical.